"UMA NOITE PERFEITA"
por Rodrigo Girão
Trinta e sete andares acima do solo, a voz de Sinatra e o
fedor de tabaco preenchiam o ar. Suaves luzes amarelas
brilhavam na sóbria mobília de madeira e cintilavam nas
taças de cristal cheias de vinho. Entediantes conversas de
família seguiam noite adentro. Apenas mais uma festa comum.
Do lado de fora, na sacada, havia um garoto. Ele estava só;
estava neblinando e o ar estava frio demais, suportável mas
não exatamente agradável para a maioria. Ele também não
gostava disso; entretanto, ele precisava da solidão que o
lugar podia trazer. Seus longos e lisos cabelos negros e
sua camiseta branca alvoroçavam-se com o vento. Seus olhos
dourados fitavam as luzes na paisagem. As distantes luzes
de neon acenavam a ele em um padrão quase hipnótico em
harmonia com a música selvagem que ecoava em sua mente. A
noite o cumprimentava.
A porta de vidro escuro abriu-se atrás dele. Ele não notou,
ou não pareceu notar. Um homem veio a ele e deteve-se a seu
lado. Ele parecia muito com o garoto, exceto que ele era
mais velho, alguns centímetros mais alto, tinha o cabelo em
um rabo-de-cavalo e vestia um terno. Ele tinha uma lata de
refrigerante na mão. "Ei, está frio aqui. Vamos entrar. Eu
sei que você odeia o cheiro dos charutos de seu tio, mas eu
já resolvi esse problema... jogando-os na lata de lixo do
banheiro."
Mas o garoto não se moveu. Ele apenas permaneceu lá,
quieto, silencioso, encarando o cenário distante. Em seu
espírito ele podia sentir. Aquilo era algo algo quase
indizível, uma saudade instintiva. Alto no céu, lá estava
ela; grande, redonda, brilhando em toda a sua beleza. A lua
cheia, sua senhora onipotente, sua dama silenciosa. "Então,
não era aquilo. Você está... se sentindo daquele jeito,
não?" O garoto virou-se e encarou-o de tal modo que nenhuma
palavra a mais era necessária para fazer daquilo uma
resposta completa.
O homem rapidamente pediu desculpas por sair tão cedo, mas
"ele está sentindo-se mal, é melhor levá-lo para casa." E
ele sabia que o garoto realmente sentia-se estranho, mas
não era devido a qualquer doença; aquilo era meramente o
outro lado de sua natureza chamando. Os dois saíram, mas é
claro que eles não foram para casa.
O parque. Uma grande área de natureza, preservada e
disponível para apreciação de todos. Nele, todos esqueciam
a cidade ao redor. Ela simplesmente parece desimportante.
Aquele lugar era um refúgio, um santuário, um local de
descanso da vida urbana. Mas era tarde da noite, então o
lugar estava quase vazio.
Eles caminharam bosque adentro, onde nenhuma pessoa sã
seria encontrada em tal hora. Este era seu lugar secreto.
Lá havia um banco verde de madeira, quase inteiramente
esquecido, a tinta rapidamente descascando, mas ainda
sólido. O homem lá sentou-se e esperou. O garoto foi para
trás do banco e despiu-se.
"Me desculpe por não ter percebido antes." O garoto
passou-lhe as roupas, que ele pôs em uma pequena mochila.
"Não se preocupe com isso. Quero dizer, todos os meus
amigos que são... sabe... como eu... eles sempre dizem que
as famílias deles não entendem. Mas você, sim!"
Ele suspirou. "Não, não entendo. Não importa o quanto eu
queira, não importa o quanto eu tente. Eu não posso
realmente entender. Mas o que mais eu posso fazer... forçar
você a ser o que não é? Eu tento aceitar, e isso é o melhor
que eu posso fazer." O garoto sorriu e olhou para o luar
que atravessava os galhos entrelaçados acima. "Se você
soubesse o quanto isso é valioso..." Ele fechou os olhos e
relaxou, deixando a mágica começar.
O homem permaneceu lá, quieto por um minuto ou dois, antes
de levantar-se. "Você já acabou?" Como não houve resposta,
ele virou-se, e lá estava um belo lobo-cinzento. "Então,
está certo, estarei aqui na hora de sempre. Tenha cuidado."
O homem afastou-se, de volta à civilização. O lobo
afastou-se, em direção à natureza.
Epílogo:
Horas mais tarde, o céu ainda estava sumamente negro, ainda
que algumas poucas faixas de vermelho e laranja pudessem
ser vistas no horizonte. Enquanto dirigia seu carro, o
homem olhava para o garoto cansado e sonolento ao seu lado,
calmamente bebendo milk-shake de morango de um copo
plástico com um canudo. Havia vestígios de lama seca em
seus pés descalços, mãos e rosto. Ele imaginava como podiam
ser tão diferentes. Mas ele realmente não importava-se
sobre como, ou porquê, ou mesmo o quê. Ele sabia a verdade
no fundo de sua alma, em seus sentimentos. Com as pontas de
seus dedos, ele suavemente afagou a nuca do garoto. "Eu te
amo, filho", ele sussurrou. "Eu também te amo, pai", o
garoto sussurrou de volta. Um novo dia estava começando, e
naquele momento o mundo parecia estar abençoado com
perfeição.