"ANOITECER NA TERRA MÉDIA"
por Hansi Kürsch
baseado em O Silmarillion de J.R.R. Tolkien
tradução de Rodrigo Girão
O GNOMO
Ao que a escuridão veio ela trouxe consigo silêncio.
Todavia silêncio também gera loucura. Silêncio rodeia-me -
um silêncio mortífero. Capturado na masmorra de meus
pensamentos mais escuros todos os portais que conduzem de
volta ao mundo da luz estão fechados para mim. Toda
esperança para libertação jaz atrás de mim, e diante de mim
extende-se a mera infinita eternidade de Arda. Separado dos
Meus eu vago pelo mundo um pária. Um imortal incógnito
entre mortais, vagando a esmo como uma folha ao vento. E de
fato apenas o vento realmente conhece meus lamentos e
apenas o mar realmente compreende minha dor. Mas eles
igualmente viraram-se e não mais se revelam a mim. Cansado
eu estou e velho, só que não posso morrer. Dentro de mim
vive a Maldição, que por muito sobreviveu ao Juramento.
Distante ao mar sepultada jaz minha esperança. Como tão
frequentemente em minha vida de sofrimento provou ser o fim
de uma longa lista de coincidências. Mas não são as
coincidências precursoras do destino? Tudo é predestinação,
e ainda que eu não passe de uma peça no tumulto da história
eu terei que sofrer eternamente pelas coisas passadas. Mas
eu meramente segui a vontade d'O Um. Eu pus um fim à
esperança para um e todos. A criatura esfarrapada que está
diante de ti qual um mendigo já foi um fidalgo. O que você
vê é um guerreiro transformado em um ancião imortal.
Sabedoria deu lugar à loucura. A voz que já chamei de minha
era mais gentil que um vento suave, mais refrescante que o
mais claro dos mananciais. Gasta por cobiça e mágoa seu som
alterou-se para fino e áspero. Logo, o melhor será cair em
silêncio para sempre. Resta-me nada. O poder da palavra já
foi meu. Mas permaneci em silêncio quando deveria ter
falado, e falei quando deveria ter permanecido em silêncio.
Palavras fatais esgueiraram-se de minha boca, e mesmo
então, eu percebi a finalidade de minha falha, a inevitável
danação a que levaria! No arco do céu noturno constelações
familiares começam a apagar-se. Mesmo os céus azuis parecem
cansados. Mas o fim, a libertação final por qual ansio
ainda está distante no futuro.
DESASTRE
Medonhos e impiedosos os dias do exílio acabaram. Medo
perfurava nossos corações e trouxe frio gélido. Era noite e
estrela nenhuma irrompeu através do manto de terror.
Sombras soltas estavam ao nosso redor. Cobiça infinita foi
seguida por lamentos miseráveis das costas próximas. Mas
consolação estava fora de vista. As antes majestosas
árvores permaneciam fracas e mortas, extintas para sempre.
A busca pelos malfeitores estava perdida na areia. Este foi
o nascimento do desespero, e com ele vieram suspeita e
ódio. No fim era minha parentela que completaria o triunfo
da aliança maldita. Eu nunca descobriria o que foi dito no
Conselho do Anel durante a hora do desastre, mas acreditei
e confiei nas palavras de meu pai. Realmente grandioso ele
era em tudo. Ninguém possuía tão tremendas habilidades. Mas
por demais ele amava o que havia criado. Tanto que ao fim
ele trairia a si próprio, seus filhos e a luz do mundo.
Forte demais era o fogo que incandescia em seu coração sem
cessar. Tão forte que devorou o corpo e alma por dentro.
Nunca antes eu conhecera medo. Isto mudaria quando a quase
impenetrável nuvem de puro mal invadiu nossa fortaleza. Tão
forte era o pânico que segurou a mim e meus irmãos que
escapar era a última saída. Por um breve momento vislumbrei
a sinistra, quase insondável massa. O que eu vi tomou meu
fôlego e ensinou-me medo. Nunca esquecerei o frio,
insaciável olhar da mulher aranha, cheia de vazio maligno,
que cobiçante pôs seus olhos opacos e mortos sobre toda a
vida a seu redor e sua desesperada tentativa de fuga.
Horrorizado eu olhei para o tremendo e desesperançado vácuo
quando este tornava tudo rígida e feia insignificância. Seu
corpo hirsuto já havia tomado forma gigantesca. Próximo a
ela mesmo o Governante Negro parecia pequeno e fraco. Longe
de nossa fortaleza habitávamos em profundo desespero,
privados de toda posse. Muitos de nós choraram amargamente
pelo grande rei que havia perdido sua vida. A terra imortal
havia encontrado morte, e as jóias estavam perdidas. E com
as jóias foi a nossa esperança. O Inimigo Negro do Mundo,
como meu pai o chamava, retornou ao lar com despojos de
grande valor e proclamou-se Rei do Mundo.
O JURAMENTO
Um véu de esquecimento jaz sobre muitas coisas, mas
claramente eu recordo-me do dia do Juramento. Ainda as
palavras de meu pai ecoam em minha mente. Tão cheios de
glória, desejo selvagem e destramente declarados eram, eles
fizeram-nos prestar o juramento. Agora eu iria, nunca
houvesse isto ocorrido. De modo fatal nós convocamos a
ruína. Despertado por suas palavras flamejantes o desejo
por novas terras e cruel vingança ocorreu a nossos corações
com força. Em imóvel orgulho eu me portei quando o
mensageiro do Mestre dos Céus mesurou despedidas a meu pai.
Nada parecia capaz de nos deter. Mesmo os maiores entre os
espíritos superiores tremeram com reverência.
A PARTIDA
Já amaldiçoados nós partimos para sofrer agonia daquele dia
em diante. A ânsia por libertação já se alvoroçava,
enquanto desastre ainda estava à distância. Cobiça tínhamos
atrás de nós, mas bem nenhum igualmente o dia negro traria.
Incerteza estava com cada passo, mas nosso orgulho nos
levava adiante. Excitados estávamos e nossos corações ainda
preenchidos com as palavras de um homem solitário cuja alma
estava em chamas. Nunca havia sido fácil olhar para dentro
do profundo e feio abismo da alma de um amigo ou parente
querido, apenas assim alguém perceberia as consequências
devastadoras. Mas este abismo inegavelmente existe em cada
um de nós. Nenhum fardo pesa mais pesado que a consciência
de que nada e ninguém é perfeito. Então, eu pude entender
aqueles que seguiram o meio-irmão de meu pai. Oh, como eu
odiei aqueles entre minha parentela! Finalmente a maior
parte de minha gente uniu-se sob a Bandeira das Estrelas,
quando apenas um grupo aparentemente pequeno seguiu a
bandeira do rei justo. Pouco amor eu partilhei por meus tão
nobres parentes, mesmo quando a simpatia de nosso povo
havia sido deles. Nunca eu compreendi porque eles foram
junto. Meu irmão mais velho entretanto parecia cheio de
desespero quanto à corrente disputa em nossa família. Mas
fomos nós que avançamos para a linha de frente. Nosso
caminho guiaria a regiões desconhecidas para nós, sinistras
e inóspitas. Também nos guiaria finalmente a queda e
desastre. Mas alguns dos feitos testemunharam fama e
glória, quando a maioria está contando histórias de
tristeza e sacrifício.
O ASSASSINATO DA PARENTELA
Vermelho - eu fecho meus olhos e vejo um rio de sangue
correndo para o oceano, misturando as águas límpidas com
inocente vermelho. Eu abro meus olhos e baixo o olhar para
mãos cobertas com sangue: as garras de uma besta estas são!
Horríveis, contraídas, assassinas. Em meus sonhos
repetidamente eu caminho, entre os Meus, seguindo para o
lar dos elfos marinhos. E ainda que eu fortemente sinta que
nossos próximos passos serão fatais, eu sou incapaz de
alterar o decorrer das coisas. Toda a minha alma é
capturada por gritante rebelião, mas eu me detenho e sigo
calado... Cavaleiros da crista branca. Sonhadores.
Inofensivos, modestos, pacíficos. Ninguém ama liberdade
mais que eles. Seu canto delicia os habitantes dos oceanos
como a música do oceano é para o deleite dos elfos
marinhos. Além dos muros entretanto uma tempestade está se
formando. Lá o cais jaz em trevas, ainda não manchado pelo
estigma do sangue. Nossas súplicas por resposta às
asserções de meu pai seguem inauditas. Armados e
determinados nós tomamos por força o que nos é dado
livremente. Com armaduras completas nós vamos aos barcos,
mas bailantemente o povo marinheiro nos joga nas águas
frias. Tão alto como nossos espíritos voaram no começo, no
fim veio queda devastadora. O choque das águas frias atiça
nossa raiva, ódio fervilha. A agonia da vergonha deve ser
vingada - milhares de vezes. Espadas são velozmente
sacadas. A batalha começa - de modo algum uma batalha comum
mas o assassinato da irmandade. Homens bravos mas inocentes
encaram-nos indefesamente. De seus corpos, suas faces ainda
enredadas nos sorrisos de boas vindas, flui sangue. Seu
gargalhar torna-se surpresa, surpresa torna-se medo, seu
medo traz percepção afinal. Seu pranto já pode ser ouvido.
A voz de um é seguida por muitos mais. O mar junta-se a seu
cruelmente belo lamento. Este som nos assombrará até o fim
do tempo. Nada, nenhuma palavra, feito ou prece - jamais
poderá tornar bom o fardo que tomamos nesta hora. Nossa
cobiça pelos botes e a realização de nossos sonhos apagam
nossa moral. Prantos por ajuda, prantos de agonia, prantos
de morte - uma cena de destroços sangrentos! Ninguém vem em
auxílio das crianças do mar. Pois presos pela palavra dada
estão os Altos Espíritos. O mar está chorando enquanto o
Mestre dos Ventos lembra-os da velha promessa. Com fúria
flamejante e levados às lágrimas pela injustiça feita aos
mais queridos amigos, eles habitam ocultos as profundezas
dos oceanos, ansiando por vingança. Nunca houve um feito
tão duro de suportar.
A MALDIÇÃO
Memórias sombrias reunem-se ameaçadoramente. Eu passo
através das névoas todavia novamente para passar por tudo
outra vez. A figura solitária gelidamente quieta, esperando
por mim Próprio parece real para mim. É a poderosa voz do
mensageiro que anuncia nosso destino desastroso. Tristeza e
confusão caem sobre nós enquanto silenciosamente ouvimos a
réplica selvagem do Pai. Então, como se em um transe, nós
lentamente nos movemos. Não de uma vez eu me viro, ainda
que saiba que muitos embarcam em seu caminho de casa,
arrependidos e humilhados. Avante nós vagamos ao longo da
costa gelada. Cobertos de gelo, nosso caminho torna-se mais
inóspito. Sob céus profundos e negros, ventos inamistosos
ao nosso redor, nós ansiamos pela concretização de nossos
sonhos. Estes pensamentos nos guiam, eles nos nutrem e
aquecem. Ainda há um raio de esperança para alterar o curso
do destino. Mas logo arrancaríamos as últimas flores;
silenciosamente nós estamos fugindo de irmão e irmã. Os
botes oferecem pouco espaço, portanto a passagem será
possível para apenas alguns de nós. A Maldição desperta.
CISNES EM CHAMAS
Talvez meu irmão perceba a vergonha, mas ele também
permaneceu em silêncio. Nossos barcos atracam e nós
suavemente saltamos para as águas rasas. Pela primeira vez
pisamos no que seria nossa nova terra. Os cisnes, orgulho
de toda uma nação, já estão em chamas. Céus vermelho-sangue
pintam o quadro de nossa ruína alvorescente. Apenas as
estrelas brilham prateadas e olham para baixo, não movidas
por todos os feitos de seu povo. Agora eu posso ver a dor
nos olhos de meu irmão. Mas meu gargalhar junta-se ao dos
outros, quando meu coração está chorando amargamente. Eu
começo a entender. Do outro lado do oceano, nossa traição é
descoberta. Aqueles que deixamos para trás embarcam em uma
longa e árdua jornada, conduzidos por apenas um desejo:
Vingança! A Maldição toma seu curso.
MAIS ALTA GLÓRIA E MAIS PROFUNDA MÁGOA
Pela primeiríssima vez encararíamos o inimigo. Restos de
nosso outrora glorioso e misericordioso reino ainda poem
sua força em nós, assim facilmente dispersamos as escassas
tropas. Todavia, nossa maior vitória ainda viria com a
Batalha Sob As Estrelas. Mas mesmo em nosso momento de
triunfo veio desastre. Todavia novamente as palavras do
mensageiro se realizaram. Nas montanhas estéreis, jazia o
Pai, seu corpo queimado e partido. Uma última vez seus
olhos vagaram sobre as poderosas torres. Símbolos do
inimigo, eles vagaram agourentamente ao longe. Ainda assim
eu me maravilho com o que meu pai sentiu quando o
reconhecimento alvoreceu nele nesta hora. Que horror e
profunda compreensão se espelhassem em seu último olhar.
Por que ele nos fez renovar nosso juramento? Uma última vez
ele nos sacrificou! Bem quando nós tínhamos prestado o
Juramento, seu espírito ardente deixou seu corpo partido.
Nada exceto cinzas restou do maior entre nossa gente. Os
ventos uivantes carregaram-nas embora. Meu pai retornou
para a Casa das Almas, antes que o pesadelo sequer houvesse
começado.
AGONIA, ESPERANÇA, AGONIA
O ardil que tramamos deu conta bem, só que fomos incapazes
de escapar das intenções malignas de nosso inimigo. Meu
irmão foi tomado prisioneiro. Além do alcance ele estava
acorrentado a uma pedra na altitude das grandes montanhas.
Desesperado e exausto aguardava sua salvação que demoraria
a vir. A lua raiou e repentinamente apareceram aqueles que
havíamos deixado para trás. Eles haviam encontrado dor
indizível, e sua marcha contava de mil feitos grandiosos e
altruístas. Orgulhosos e destemindos sua numerosa multidão
caminhou sobre a terra. Ao que seu líder ordenou que se
levantasse sua bandeira azul, a manhã alvoresceu e pintou o
céu do amanhecer em um vermelho ardente. À vista dos
portões do inimigo eles sopraram as cornetas e seus
poderosos sons abalaram as temíveis torres da fortaleza.
Tão logo o Governante Negro reconheceu seu inimigo, mas
neste momento de surpresa os imimigos retrocederam
indispersos. Desde então vivemos separados dos nossos,
pesada demais era a culpa. Com o sol os mortais ou
nascidos-segundo apareceram no leste. As crianças do sol
lentamente vagaram em direção à luz e portanto em direção
ao nosso reino.
TEMPOS DE GLÓRIA
Breve foi o tempo que trouxe algum alívio aos corações
feridos de nossa gente. Seria o meu primo a, com um esforço
nobre e corajoso, libertar meu irmão de seu miserável
cativeiro. Mas quão alto o preço! Amaldiçoados nós fomos,
ainda assim tínhamos um lar. A Bandeira das Estrelas agora
era o símbolo de nossa dominação. Aqueles dias também
pareceram a nós que os tempos tristes haviam finalmente
passado. Profunda amizade nos ligava com nossa parentela,
aqueles que nunca haviam visto a luz do reino abençoado. O
inimigo comum que tínhamos e por razões de comércio nos
ligava aos anões. O povo habilidoso nunca revelou muito de
si, assim eles sempre permaneceram estranhos para mim.
Assim pacificamente vivemos na falsa crença de sermos
superiores ao inimigo negro. E como nos enganamos! Cheios
de confiança mantivemos controle da terra e mantivemos o
inimigo sitiado. Meus irmãos e eu orgulhosamente reinamos e
defendemos nossas novas terras. Sem preocupação, esperamos
o ataque do Governante Negro. Facilmente derrotaríamos
aquelas criaturas tão cheias de medo e ódio. A Maldição
parecia esquecida. Nenhum de nós ainda acreditaria nela.
Afinal, governávamos a terra! Ocorreu a apenas poucos de
nós que a tempestade voltaria, mais aterrorizante e cruel
que nunca antes. Portanto dois de nossos altos príncipes
secretamente planejaram a construção de abrigos. Eles nunca
confiaram nesta paz. Esperança, eles acreditaram ser algo a
permanecer oculto. Sua prudência provou serem sábios. Uma
última vez nós decidimos um grande ataque do Governante
Negro gloriosamente e a nosso favor. A Batalha Gloriosa
fortalecia nossa crença de podermos resistir ao Inimigo
Negro.
A CALMARIA ANTES DA TEMPESTADE
O cerco continuou, e ainda acreditávamos em nossa própria
força. Então ignoramos os sinais. O dourado Pai dos
Dragões, ainda jovem e distante de seu poder posterior,
ergueu-se das profundezas da fortaleza do inimigo. Moldado
em forjas cruéis ele agora encontrara sua primeira
humilhação. Novamente o herdeiro do Alto Rei fez gloriosa
história. Mesmo eu tremi de admiração. Era ele que havia
nos auxiliado por amizade e quem inteiramente perdoara o
passado. E como ninguém mais ele seria pego em nossa
maldição. E como ninguém mais ele sofreria pelo passado.
RUMORES E DOLOROSA VERDADE
O que ocultamos por tanto tempo raiou sem aviso. Novamente
meus irmãos e eu seríamos condenados. Suspeita e ódio
atacaram nossa casa, ainda que não houvesse nos perturbado
no começo. Conduzidos por fria arrogância o ímpeto de
retomar nossos tesouros roubados vagou por nossas mentes
impacientemente, fazendo tudo mais insignificante. A
crescente aflição que encontramos a nosso redor nós
repondíamos com sorrisos cansados. Ainda assim, a maioria
de nós nem notou. Vozes encantadoras sucumbiam quando quer
que eu desejasse juntar-me aos belos feitos dos elfos da
floresta, minha voz constante e harmoniosa. Aparentemente
imóvel, ainda que capturados em um tormento interior eu
segui cantando por minha conta. Para mim parecia como se
eles houvessem escutado-me surpresos por apenas um curto
instante e então, secretamente fugiram para a segurança dos
bosques. Eu não tive problema em adivinhar seus
pensamentos. Minha voz eles certamente adoraram. O corpo e
a alma em que viviam entretanto, eles profundamente
odiavam. Nesta parte do mundo nossa nobre linguagem era
falada apenas em segredo. A linguagem dos assassinos da
parentela.
MUDANÇAS
Era por volta do mesmo tempo quando, nos bosques distantes
que chamamos Floresta Negra, o Filho do Desastre nasceu.
Nunca falamos um ao outro. Ainda assim compartilhamos o
mesmo destino - o destino dos traidores. Seu próprio
interior suplicava por luz e amor, ainda assim ele traria
nada exceto discórdia a ambos. Sob a superfície de sua
nobre aparência jazia indetectada a semente do mal,
lentamente crescendo. O povo humano apareceu, repentino e
inesperado. Nós saudamos nossos irmãos mais novos, ainda
que estivéssemos cheios de desconfiança. Muito diferentes
dos nossos, pareciam os modos daqueles, que juntaram-se a
nós tão tardiamente. Nós amávamos a lua, eles adoravam o
sol. Mas logo percebemos que eles também, eram assombrados
pelas sombras negras. Desconsiderando isso, nós logo nos
aliamos. Desastre seguiu seu curso.
CAOS
Pânico agarra-se a mim quando eu me lembro dos muros de
fogo, trazidos sobre nós por tropas sedentas de sangue!
Logo a terra estava destruída e beleza sem fim perdida para
sempre. Morte fez boa colheita naqueles dias. As almas dos
mortais embarcaram uma jornada com destino desconhecido.
Partidos e queimados os corpos de elfos jaziam dispersos
sobre os desertos queimados. Muitos retornaram à Casa das
Almas, para lá habitar incorpóreos até o final dos tempos.
Havíamos perdido nosso lar. Infindável era nossa cobiça e
infindável parecia a guerra. Os fogos não se apagariam
antes que o Ciclo do Despertar trouxesse um fim ao inverno
mortífero. Estéril e devastada jazia a terra. O fedor de
corrupção iria durar através do ano. Então nossa única
esperança foi tirada pela mensagem do amargo fim do Alto
Rei. Com muito atraso soubemos de sua gloriosa batalha e
das feridas que ele infligiu ao nosso inimigo maior. Por
sua existência nosso povo e mesmo eu juntamos esperanças
para um futuro melhor. Agora claramente veio a nós quão
desesperançada nossa situação havia se tornado. Em cada um
de nós viveu um crescente desejo por nossas terras pátrias.
Mas todos os caminhos eram negados a nós. Nossa glória
decaiu com nossa cobiça. As cores da natureza feneceram a
com elas foi-se nossa juventude. Então parecíamos apenas
desgastados e cansados. Apenas alguns poucos feitos de
glória a sobreviver aos séculos foram alcançados naqueles
dias. Os amigos dos elfos entretanto, alcançaram grande
glória, um deles até alcançou amor imortal.
AMOR IMORTAL - MALDIÇÃO ETERNA
A ânsia interior por nossas possesões de direito continuou
viva. Nunca adormeceu e portanto tranformou-se em cobiça
venenosa. A dor que nós incessantemente conduzíamos ao
mundo não nos preocupou. Como se conduzidos por loucura nós
lutamos pela luz, só que ela parecia além de nosso alcance.
Mas repentinamente estranhos contos de beleza e maravilhas
vieram e pareceram prometer uma reviravolta: "Tudo é
predestinação, mas amor puro até talvez possa alterar a
raiz das coisas! Alto é o preço pela mais bela criança em
todo o mundo. Facilmente o sábio articula palavras
desastrosas. Mas com o escorregar de uma língua muitas
coisas não poderão ser desfeitas. Um mortal que se estende
para as estrelas deve pagar com a perda de suas mãos. Mas
no fim a dança deverá ser coroada com o sucesso. Horror jaz
em sonhos pesados, mas aqueles que são puros poderão tocar
a pureza. Assim a noiva poderá ser redimida, e mesmo morte
nunca devará separar os dois. Incerteza deve cessar
imortalidade. Nunca pense pouco do poder do amor." Sim,
meus irmãos também, tiveram sua parte nesta história. Eles
igualmente tiveram de sentir a dor em vista do amor.
Finalmente, o Reino Abençoado virou-se contra nós. Nossas
vidas foram perdidas. Reverência e medo estavam em nós, só
que a Maldição era mais forte. Uma das jóias que havíamos
há muito perdido, soubemos estar não longe de onde
estávamos. Novamente ergue-se nosso desejo de retomá-la.
Desnecessário dizer, novamente disto veio desastre.
DESABRIGADOS, POBRES E TRAÍDOS
A ninguém entre eu e meus irmãos foi garantido o alcance de
feitos realmente heróicos, mesmo que tentativas houvessem
sido muitas. Todas elas falhariam miseravelmente. Uma
última vez desejamos estar à frente do inimigo e movemo-nos
contra ele. Nossas tropas eram poderosas, mas traição
encarregou-se de nossa derrota final e dividiu as duas
raças. Nossa derrota foi realmente devastadora. Se não
fosse pelos Mascarados e sua coragem nós nunca teríamos
sobrevivido. Bravamente eles ajudaram-me e a meus irmãos a
escapar. Corajosamente os anões enfrentaram a prole do
dragão. Atacando com seus grandes machados eles até
expulsaram o Dourado do campo de batalha. Eles pagariam
amargamente com a perda da vida de seu rei. Meu primo, o
Alto-Rei, também morreu na batalha desesperançosa, e com
ele sua bandeira. Também as três Casas fizeram gloriosa
história, mesmo muitas vidas sendo perdidas nas ruínas.
Meus irmãos e eu estávamos entre os sobreviventes. E também
a Maldição...
SOBRE O AUTOR: Hansi Kürsch, profundo admirador da obra
de Tolkien, é vocalista, baixista e principal compositor da
mundialmente aclamada banda alemã de heavy metal Blind
Guardian.